A análise dos pedidos de indicação apresentados pela Câmara Municipal de Itararé escancara mais do que números. Ela revela modelo de gestão, capacidade de execução e, sobretudo, preparo para governar. Em um comparativo direto entre o primeiro ano de Heliton do Valle, em 2021, e o primeiro ano de João Fadel Filho, em 2025, os dados não deixam margem para interpretação benevolente.
Em 2021, Heliton do Valle recebeu 415 pedidos de indicação. Já em 2025, João Fadel Filho recebeu 886, mais que o dobro. A questão central não é apenas quantitativa, é funcional. Por que uma gestão precisa de quase 900 indicações para funcionar? E mais grave, por que mesmo com esse volume recorde a cidade acumulou problemas, escândalos e desgaste social?
Nota da Redação
As informações referentes aos pedidos de indicação utilizadas neste comparativo foram extraídas diretamente do Portal Oficial da Câmara Municipal de Itararé. O sistema de consulta pública atualmente disponível não apresenta registros anteriores ao ano de 2021, motivo pelo qual a análise considera exclusivamente os dados oficiais acessíveis a partir desse período. Os números apresentados refletem integralmente os registros públicos disponíveis, em conformidade com os princípios de transparência e fidelidade à informação.
O que são pedidos de indicação e por que eles importam
É fundamental esclarecer ao leitor o papel dos pedidos de indicação. Eles não criam obrigação legal ao Executivo, mas funcionam como termômetro da gestão pública. Indicam falhas, gargalos e urgências apontadas pelos vereadores, que estão diariamente em contato com a população.
Quando a administração é organizada, técnica e proativa, esse número tende a ser menor e mais estratégico. Quando a gestão é reativa, desarticulada e distante da realidade cotidiana, as indicações se multiplicam. Foi exatamente isso que se observou em 2025.
Dois perfis, dois resultados
No primeiro ano de Heliton do Valle, empresário e gestor com perfil executivo, as indicações cumpriram seu papel clássico, ajustes pontuais, demandas localizadas e melhorias específicas. Havia planejamento, execução e resposta. A máquina pública funcionava com protagonismo próprio, sem depender de empurrões constantes do Legislativo.
Na gestão João Fadel Filho, o cenário foi outro. As indicações passaram a funcionar como muletas administrativas. Vereadores precisaram indicar o óbvio, ações que deveriam fazer parte da rotina básica do Executivo.
Não era agenda estratégica. Era pedido de socorro institucional.
Um ano marcado por problemas visíveis
Mesmo com quase 900 pedidos de indicação, o saldo do primeiro ano de governo foi amplamente negativo, marcado por:
- Sensação generalizada de abandono nos bairros
- Ruas esburacadas e obras sem planejamento
- Cidade visivelmente mais suja
- Crises recorrentes na área da saúde
- Escândalos administrativos já amplamente noticiados
- Desgaste político precoce e perda de confiança popular
Os problemas deixaram de ser pontuais e passaram a compor o cotidiano da cidade.
Gestão não se herda, se constrói
Aqui entra uma diferença que a política local insiste em ignorar. Gestor não nasce pronto por sobrenome. Administração pública exige método, liderança, leitura de cenário e capacidade de decisão.
Heliton do Valle chegou ao cargo com mentalidade empresarial, visão de processo e foco em resultado. João Fadel Filho assumiu como herdeiro político, mas até aqui não demonstrou comando, ritmo ou capacidade de antecipar problemas.
Quando vereadores precisam indicar tudo, do básico ao urgente, algo está profundamente errado. Quando quase 900 indicações não se convertem em melhoria visível da cidade, o problema não está na Câmara. Está no Executivo.
Números que falam por si
O comparativo não é apenas estatístico, é simbólico.
Um governo que precisou de menos indicações entregou mais.
Outro que recebeu quase o dobro entregou menos e ainda acumulou crises.
Itararé não precisa de pedidos para funcionar. Precisa de gestão. E números, quando bem lidos, não mentem.
Pergunta estratégica
A Câmara vai continuar compensando a falta de gestão com indicações, ou chegou a hora de cobrar, de forma direta, por que tanta demanda básica segue sem resposta mesmo após um ano inteiro de governo?
Fechamento crítico: o tempo acabou
Estamos em 23 de dezembro de 2025. O primeiro ano terminou, o discurso inaugural venceu e a paciência institucional também.
2026 não pode ser mais um calendário de justificativas. Ou a engrenagem da Prefeitura de Itararé começa a andar, com decisões claras, prioridades definidas e execução diária, ou o governo seguirá refém de indicações, remendos e da insatisfação crescente nas ruas.
Cidade não se governa por inércia nem por sobrenome. Governar exige comando, leitura de cenário e coragem para corrigir rumos. O próximo ano será decisivo.
A pergunta que fica não é se haverá mais pedidos de indicação, isso é sintoma. A pergunta real é se haverá atitude para transformar demanda em entrega e crise em solução.
2026 bate à porta. A cidade espera menos papel, menos desculpa e mais asfalto, limpeza, saúde funcionando e gestão de verdade. A engrenagem está parada há tempo demais. Quem governa precisa decidir se vai girar ou travar de vez.
Fechamento político e eleitoral
- 2026 não é apenas gestão, é teste de força política
- Discurso passado entra em choque com a realidade atual
- Votos não se transferem por decreto
- O cenário favorece quem tem lastro, histórico e entrega
Há ainda um elemento que torna esse debate ainda mais sensível. 2026 é ano eleitoral, com disputa para a Presidência da República e, principalmente para Itararé e região, para deputados federais e estaduais.
De um lado, o governo municipal está politicamente alinhado ao grupo do deputado Maurício Neves. Do outro, surge um nome com peso local e regional, Heliton do Valle, ex-prefeito por oito anos consecutivos, empresário e gestor, que entra no jogo como pré-candidato a deputado federal.
A pergunta que ecoa nos bastidores é incômoda, mas inevitável. O governo João Fadel Filho conseguirá entregar os votos que um deputado exige de um prefeito aliado?
Voto não nasce em gabinete. Nasce na rua, na percepção da população e na comparação direta entre discurso e realidade.
Há também uma ironia difícil de ignorar. Em campanhas passadas, o próprio João Fadel Filho repetia a bandeira de que era preciso eleger um deputado da região. Agora, diante de um nome regional consolidado, com histórico administrativo e capital político próprio, como essa narrativa vai se sustentar?
A política tem memória. O eleitor também.
Se 2025 foi marcado por excesso de indicações, falhas básicas de gestão e sensação de abandono, 2026 será o ano da cobrança nas urnas. Não adianta pedir voto para fora se a casa não está em ordem. Não adianta exigir fidelidade política sem entregar resultado administrativo.
Nesse tabuleiro, Heliton do Valle surge como contraponto natural. Não como promessa, mas como histórico. Não como discurso, mas como comparação concreta de gestão.
O cenário está posto. A dúvida não é se a eleição vai influenciar a administração, isso é inevitável. A dúvida é se a atual gestão terá força política e moral para pedir votos enquanto enfrenta questionamentos tão básicos sobre sua capacidade de governar.
2026 será menos sobre discurso e mais sobre consequência. E Itararé, mais uma vez, será o termômetro.














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