A Comissão Especial de Inquérito sobre o descarte irregular de resíduos funerários em área próxima à Estação de Tratamento de Água de Itararé deixou de ser apenas um instrumento de fiscalização. Tornou-se uma disputa política explícita sobre quem controla a investigação e com quais limites.
Após a confirmação de que a nota oficial da Prefeitura continha informação inconsistente, ao afirmar a existência de empresa terceirizada contratada para a destinação desses resíduos, vereadores da oposição protocolaram pedido formal de abertura de CEI. O movimento expôs o Executivo e gerou reação imediata da base governista.
Desde então, o debate deslocou-se do fato investigado para o comando da comissão.
O papel do líder do governo
O vereador Pastor James Garcia, líder do governo na Câmara, assumiu protagonismo ao afirmar publicamente que não assinou a CEI já protocolada porque, para participar, precisaria presidi-la. Em discurso em plenário, deixou claro que só integraria a comissão se fosse o responsável por conduzi-la.
A declaração é politicamente relevante. Ao condicionar sua participação à presidência, o líder do governo transforma a investigação em instrumento de controle político, não de fiscalização independente.
Embora afirme reiteradamente que não atua para defender o prefeito João Fadel Filho, o discurso e os movimentos práticos apontam para uma estratégia clássica de gestão de crise, aceitar a investigação apenas se ela estiver sob controle do próprio governo.
Reclama da cobrança popular, mas já conhecia a CEI
Outro ponto que gerou forte reação pública foi a contradição entre a fala do vereador e os fatos. Pastor James Garcia reclamou das cobranças da população por não ter assinado a CEI, embora tenha admitido que já havia articulação interna para abertura de comissão semelhante.
A pergunta que emerge é direta: a população cobrou cedo demais ou o posicionamento público demorou demais?
Em situações que envolvem possível risco sanitário e ambiental, a cobrança popular não é excesso. É consequência da falta de respostas claras.
Ironia diante de um caso grave
Ao se referir ao episódio como “CEI do caixão”, em tom irônico, o líder do governo minimiza um fato grave que envolve descarte irregular de resíduos funerários. O recurso retórico contrasta com a gravidade técnica do caso e reforça a percepção de distanciamento entre o discurso político e a preocupação social.
Quando a ironia substitui a explicação, a mensagem que chega à população é de desprezo institucional, não de responsabilidade pública.
Um padrão de discurso que relativiza cobranças públicas
O tom adotado pelo líder do governo não se restringe ao episódio da CEI. Em outro pronunciamento recente, ao comentar cobranças por melhorias na área da saúde, o vereador afirmou que zerar a fila de atendimentos “já não seria trabalho, mas milagre”, classificando como impossível atender à demanda apresentada.
A fala, embora apresentada como realismo administrativo, gerou reação por relativizar uma cobrança legítima da população. Em vez de tratar a fila como problema de gestão a ser enfrentado, o discurso desloca a responsabilidade para o campo do impossível, normalizando a permanência do problema.
O mesmo recurso retórico aparece agora no debate sobre a Comissão Especial de Inquérito. Ao ironizar o descarte irregular e minimizar cobranças públicas, o líder do governo transforma dever administrativo em exceção e fiscalização em exagero.
Para críticos, o efeito político é claro: quando a cobrança popular é tratada como exagero ou “milagre”, a falha deixa de ser do gestor e passa a ser da expectativa do cidadão.
CEIs seletivas e memória política
Em outro momento, o vereador destacou que três CEIs já haviam sido abertas na Câmara, todas voltadas contra a gestão anterior. O dado, longe de reforçar sua defesa, acende um alerta.
Por que investigações avançam com rapidez quando miram governos passados, mas exigem cautela, prudência e articulação quando envolvem o governo atual?
A seletividade na disposição de investigar é um dos fatores que mais corroem a confiança pública.
Ataque à imprensa e isolamento político
Ao classificar reportagens como “tendenciosas” e reduzi-las a “materinhas”, o líder do governo não confronta apenas a imprensa local, mas questiona indiretamente a cobertura de veículos nacionais que repercutiram o caso.
A pergunta inevitável é: quando a fiscalização incomoda, ela passa a ser tratada como tendenciosa?
Esse tipo de reação costuma produzir efeito contrário ao desejado, amplia o isolamento político e reforça a percepção de blindagem institucional.
Investigação ou contenção
A CEI deverá ser instaurada. A questão que permanece aberta não é se haverá investigação, mas como ela será conduzida.
O debate em Itararé expõe uma dinâmica recorrente na política brasileira, aceitar a investigação apenas quando se controla o investigador.
Para a população, a diferença é decisiva. Uma CEI independente esclarece. Uma CEI administrada preserva.













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