Em Itararé, a política costuma ser impiedosa com quem constrói a própria imagem em cima da cobrança pública. O arquivo não esquece. E o arquivo de Lucas Aparecido de Castilho é especialmente desconfortável para o momento atual. O ex-vereador que ajudou a popularizar a figura do “vereador sem cabresto” hoje ocupa a Secretaria de Serviços Municipais, pasta ligada diretamente à manutenção urbana, aos serviços de infraestrutura e à resposta cotidiana que a população espera ver funcionando na rua.
O problema para o atual secretário é que esse material, que antes servia como combustível político, hoje virou parâmetro de cobrança contra ele próprio. Como vereador, Lucas aparece nos registros públicos da Câmara cobrando água potável no Cemitério Municipal de Santa Cruz dos Lopes, além de outras pautas ligadas à manutenção e aos serviços básicos. Ou seja, ele construiu parte de sua trajetória apontando aquilo que considerava símbolo de omissão e abandono do poder público.
Nos vídeos e imagens publicados em sua rede social no Facebook, esse contraste ganha rosto e cenário. Em uma gravação, ele aparece na Praça São Pedro, em meio ao mato, classificando o local como “um verdadeiro sertão”. Em outra, surge aparando a grama e ironizando a situação com o tom debochado que marcou sua atuação política. À época, o recado era direto, a cidade estava abandonada e a Prefeitura não dava conta do básico. Hoje, esse mesmo arquivo virou régua para medir sua atuação dentro do governo.
Quem transformou a praça com mato em símbolo de descaso administrativo agora integra um governo que segue sendo cobrado por agir sem planejamento, de forma reativa e sem garantir manutenção contínua dos espaços públicos. Na prática, o personagem que apontava o problema passou a ser cobrado pela solução.
Esse tipo de registro reforça a percepção de que a gestão João Fadel Filho opera mais na lógica do improviso do que na da prevenção. O desgaste cresce porque a própria Prefeitura sustenta, em seu balanço oficial dos 100 dias, que a administração trabalha com “organização, planejamento e responsabilidade”, além de afirmar que todas as secretarias avançaram significativamente e que serviços essenciais foram retomados. Quando o discurso institucional fala em método e a população continua comparando o presente com os próprios vídeos de um secretário cobrando abandono no passado, a crítica deixa de ser apenas política e passa a ser simbólica.
Essa percepção se aprofunda no dia a dia da cidade. Para críticos da administração, Itararé passou a ser governada no modo “apagar incêndios”, expressão usada quando falta planejamento e a máquina pública age apenas para remediar o problema depois que ele explode. O incômodo cresce justamente porque a própria Prefeitura diz governar com organização e planejamento. Quando o discurso oficial vende método e a rua continua falando em improviso, a crítica política ganha peso.
Na Área de Lazer Miguel Jorge Fadel, conhecida por muitos moradores como Praça do Peixe ou Lago dos Peixes, esse abismo entre anúncio e entrega ficou escancarado. A Prefeitura anunciou oficialmente o início da revitalização do lago e prometeu limpeza completa, reparo do sistema de escoamento, remoção da lama acumulada, reconstrução das guias ao redor do lago, reabastecimento com nova água e introdução de novos peixes. Depois, voltou a divulgar que as obras seguiam “a todo vapor”, com paisagismo e reorganização do espaço. O problema é que, quanto mais orgulhoso foi o anúncio, maior virou o desgaste político quando a obra passou a ser vista por parte da população como vitrine de acabamento fraco, manutenção insuficiente e revitalização incompleta.
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O contraste fica ainda mais evidente porque a revitalização foi vendida com entusiasmo pelo próprio governo, inclusive em vídeo publicado nas redes sociais do prefeito, informado à reportagem. O discurso falava em devolver à população um ambiente mais bonito, funcional e cheio de vida. É justamente aí que a cobrança política ganha força. Quanto mais alto foi o discurso oficial sobre a revitalização, maior o desgaste quando a população passa a enxergar um resultado aquém da propaganda. Em vez de símbolo de transformação, a área virou vitrine da diferença entre o anúncio e a entrega percebida.
E é justamente aqui que a palavra revitalização começa a pesar contra o próprio governo. Revitalizar não é só tirar a lama e consertar as margens. Revitalizar de verdade é podar árvores, repintar lajotas com critério, trocar bancos quebrados, substituir a grama deteriorada, melhorar de fato a iluminação, instalar lixeiras novas, inclusive para recicláveis, e implantar monitoramento para coibir o descarte irregular de lixo no chão e dentro do lago. Sem esse conjunto de ações, a placa de obra corre o risco de parecer mais um exercício de propaganda do que uma entrega real à população.
Nos relatos encaminhados à reportagem, a crítica é direta, houve pintura sem correção estrutural, bancos permanecendo quebrados, água com aspecto de lodo, bordas improvisadas, calçadas sem alinhamento, luminárias que não convencem e um parquinho que, em dias de chuva, volta a acumular água. A placa fala em revitalização, mas o que parte da população enxerga é maquiagem administrativa. E quando a maquiagem vira método de governo, o que sobra não é legado, é desgaste.










O ponto mais sensível dessa contradição aparece quando a cobrança sai da praça, do mato e da estética urbana, e entra no terreno do que é inegociável. Na sessão ordinária de 30 de março de 2026, a Câmara registrou indicação cobrando filtro de água potável, além de manutenção de banheiros e ventiladores na Creche Municipal Prof.ª Rita Cássia Juliano. Quando uma administração passa a ser pressionada publicamente por água potável e manutenção básica em ambiente escolar, o problema já não pode ser tratado como detalhe operacional. Vira retrato de prioridade invertida, de resposta tardia e de falha de gestão.
A contradição fica ainda mais pesada porque a própria Prefeitura vendeu 2025 como ano de reorganização administrativa. Em sua retrospectiva, o governo afirmou que, na Secretaria de Serviços Municipais, houve apoio à organização dos serviços de roçada e limpeza urbana, com definição de itinerários e mais dinamismo às ações de zeladoria. Ao mesmo tempo, Alessandro Martins de Freitas aparece oficialmente tanto como vice-prefeito quanto como secretário municipal de Governo. Na prática, a estrutura política transmite a sensação de dois caciques para a mesma aldeia, Lucas na pasta e Alessandro orbitando diretamente a engrenagem dos serviços municipais. O problema é que, mesmo com essa dobradinha política e administrativa, a cobrança continua de pé, porque o básico segue virando problema. Se com um secretário já não andava, com dois orbitando a mesma pasta, a sensação é de que a máquina continuou patinando.
Há outros registros que ampliam esse espelho incômodo. Em 2024, como vereador, Lucas também protocolou indicação sobre a estrada que liga o Bairro do Matão ao Bairro de Furnas, reforçando que a zona rural fazia parte da agenda de cobrança que ele explorava politicamente. Quando o mesmo agente político que cobrava estrada, praça, água e zeladoria assume a pasta que lida com essas frentes e a população segue reclamando da falta de manutenção, o desgaste deixa de ser episódico. Vira padrão.
Os vídeos que Lucas Castilho publicou no passado hoje funcionam como prova incômoda contra o próprio governo que ele integra. O político que transformou mato alto, praça largada e abandono em munição eleitoral agora está dentro de uma administração que continua sendo cobrada por tropeçar no básico, reagir tarde e administrar por remendo. A crítica fica mais dura porque nasce do arquivo público, não apenas do discurso da oposição.Na política, vídeo antigo não prescreve, ele cobra. E no caso de Itararé, o arquivo fala alto. O “vereador sem cabresto” que apontava o mato, o abandono e a omissão agora está no centro da engrenagem que deveria resolver esses mesmos problemas. Se antes Lucas Castilho cobrava ação, hoje precisa explicar a falta dela. E essa talvez seja a imagem mais fiel do governo João Fadel Filho, muito discurso, muito improviso e pouca capacidade de entregar o básico com método, constância e planejamento.
















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