Itararé entrou em uma disputa que vai além do Carnaval. O que está em jogo, segundo críticas feitas na Câmara e reforçadas nas redes sociais, é a ordem de prioridades da gestão municipal. Na 3ª sessão ordinária do Legislativo, em 19 de fevereiro de 2026, vereadores levaram à tribuna questionamentos sobre o tamanho do investimento na festa e sobre a velocidade com que a Prefeitura consegue viabilizar contratações e serviços para eventos, enquanto demandas essenciais seguem como reclamação recorrente da população.
No dia seguinte, 20/02, o prefeito João Fadel Filho publicou um vídeo rebatendo as críticas. A reação, porém, não arrefeceu o debate. Pelo contrário, aumentou o desgaste político ao adotar tom de confronto, com ataques diretos aos vereadores e tentativa de deslocar a discussão para o terreno pessoal, em vez de sustentar a decisão no campo das escolhas públicas.
O estopim na Câmara, crítica foi sobre urgência, não sobre festa
Na sessão de 19/02, os vereadores Sandro Macedo e Filipe Martins afirmaram que não são contra o Carnaval, mas fizeram ressalvas ao formato e ao porte do evento, defendendo que o município tem necessidades urgentes que exigem prioridade. Entre os pontos citados, eles questionaram a opção por ampliar a festa e criticaram o que chamaram de contraste entre a agilidade para eventos e a demora em ações ligadas ao cotidiano, como manutenção de frota, obras, melhorias urbanas e demandas em saúde.
A crítica, na essência, foi de gestão. Quando a Prefeitura acelera em um tema e patina em outros, a população lê isso como escolha, não como acaso.
O vídeo do prefeito e a opção pelo confronto
Ao responder nas redes sociais em 20/02, João Fadel Filho defendeu o Carnaval como cultura, geração de renda e fortalecimento do comércio local. Até aí, debate possível. O que ampliou a crise foi a forma. No vídeo, o prefeito saiu do terreno do debate público e adotou um tom de confronto, atacando vereadores, citando posicionamentos políticos e trazendo comparações envolvendo remuneração.
O resultado foi previsível: a discussão deixou de ser sobre prioridades do município e virou embate pessoal. Em vez de desarmar a tensão com serenidade e foco no que a população cobra no dia a dia, a resposta reforçou a sensação de que a gestão prefere reagir na arena das redes sociais, com energia para a disputa, do que liderar o debate com equilíbrio.
Quanto já foi reservado para o Carnaval 2026
Com base em documentos de empenho já reunidos, o Carnaval 2026 soma, até o momento, R$ 228.392,52 em despesas emitidas entre 10 e 20 de fevereiro. Empenho não é pagamento, mas é a reserva formal do orçamento, ou seja, indica que recursos públicos foram direcionados para viabilizar o evento.
O recorte identificado até aqui mostra um padrão de concentração e pulverização.
Concentração, com destaque para três despesas de “apresentação de escola de samba” por inexigibilidade, somando R$ 130.000,00.
Pulverização, com uma sequência de despesas menores que compõem a operação do evento, como cobertura fotográfica, shows musicais, locação de trio elétrico, grades de contenção, bandeiras personalizadas, lonas, locação de brinquedos, alimentação e segurança.
Só em segurança para eventos, o total identificado chega a R$ 20.160,00.
Há ainda itens que podem entrar posteriormente e elevar o valor final, como parte de estrutura e outras despesas menores que costumam ser empenhadas após etapas administrativas.
Importante para precisão jornalística: existe registro de despesa de eletricista vinculada ao Esporte e, com as informações disponíveis, não é possível afirmar que o serviço foi usado no Carnaval. Sem prova, não se acusa.
A rua fala, e o tema não é Carnaval
Os comentários no vídeo do prefeito ajudam a entender por que a discussão saiu do plenário e foi para a cidade. Entre as manifestações, a cobrança mais repetida não foi sobre escola de samba. Foi sobre saúde e serviços essenciais.
Moradores citaram a necessidade de melhorar a Saúde, relataram deslocamentos para tratamento fora do município, mencionaram hemodiálise em outras cidades e reclamaram de falta de médicos, estrutura e ambulância. Outros comentários apontaram ruas esburacadas, sujeira, praças mal cuidadas e pedidos de atenção a escolas, com menção a problemas estruturais em unidades da rede.
Também houve relatos sobre atendimento hospitalar, com elogios pontuais a profissionais, mas críticas à falta de equipe em determinados turnos, reforçando a sensação de sobrecarga e insuficiência de pessoal.
O conjunto dessas reações revela um padrão: parte da população não está discutindo se festa é boa ou ruim. Está dizendo que a cidade tem urgências que não se resolvem com evento, e que a comunicação do governo parece mais pronta para defender a festa do que para encarar o que dói todo dia.
Prioridade invertida, quando a desculpa técnica não responde a cobrança real
Existe uma resposta automática que sempre aparece nesse tipo de debate: “dinheiro de cultura não pode ser usado na saúde”. Em muitos casos, isso até faz sentido do ponto de vista contábil. Só que essa frase não responde à cobrança principal, ela só tenta encerrar a conversa no grito burocrático.
Porque a crítica não é sobre pegar um envelope e despejar no outro. A crítica é sobre prioridade política e capacidade de liderança. É sobre onde a gestão coloca tempo, urgência, articulação e presença pública. Um prefeito pode não remanejar uma rubrica específica, mas pode e deve correr atrás de recursos para o essencial, destravar o que está travado, cobrar entrega de secretarias e, principalmente, mostrar que o básico não é figurante no governo.
Quando o prefeito escolhe responder com vídeo duro para defender o Carnaval, e os comentários explodem cobrando saúde, ruas e escola, o problema deixa de ser orçamento. Vira prioridade percebida, e prioridade percebida é a que define a confiança do cidadão.
O argumento de que “cultura é cultura” também não resolve. Ninguém está demonizando evento. O que a cidade está dizendo é outra coisa: para montar festa, o governo foi rápido, para resolver o essencial, o cidadão segue esperando. Esse contraste é devastador porque é vivido no dia a dia, e não se neutraliza com discurso.
E a situação piora quando, diante de questionamentos legítimos do Legislativo, a gestão reage com ataque e personalização. A mensagem que chega na ponta é simples: há energia para o palco, mas falta a mesma energia para o que dói o ano inteiro.
Itararé não está pedindo para acabar com festa. Está pedindo equilíbrio, urgência e prioridade no que é básico. No fim, o que incomoda não é o Carnaval existir. É o contraste que a cidade enxerga: para a festa, pressa, mobilização e defesa pública, no ritmo do samba. Para a saúde, fila, cobrança e silêncio.
Quem está esperando atendimento não quer vídeo, quer solução. Quem desvia de buraco não quer briga, quer rua. E enquanto o prefeito João Fadel Filho escolhe gastar energia pública em palco e reação, a saúde segue recebendo, na melhor das hipóteses, silêncio.













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