A resposta enviada pela própria Prefeitura de Itararé ao Pedido de Informação nº 14/2026 joga luz sobre um dado que pesa no debate público e atinge em cheio a gestão João Fadel Filho. O documento oficial informa que os gastos com contratação de ambulâncias saltaram de R$ 13.817,40 em 2023 para R$ 139.829,36 em 2024 e chegaram a R$ 533.375,91 em 2025. Em 2026, até a data da resposta, os valores já informados nas modalidades A, B e UTI somavam R$ 264.268,88. Os números constam em memorando interno da Secretaria Municipal da Saúde enviado em resposta ao requerimento legislativo.
Na 9ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal, realizada em 30 de março, o vereador Dr. Filipe Martins usou esses dados para atacar a condução do governo. Em tribuna, ele afirmou que existe um “abismo” entre a frase dita pelo prefeito na posse, “sem maldade com ninguém, com bondade para todos”, e a prática administrativa observada até aqui. Também declarou que decisões do prefeito vêm sendo anuladas pela Justiça e sustentou que a máquina pública estaria sendo usada para atender à vontade do gestor, e não à finalidade pública. No campo da saúde, o vereador associou o aumento das despesas com ambulâncias à falta de planejamento e cobrou explicações sobre veículos públicos que, segundo ele, seguem parados e sem manutenção.
Os dados da própria prefeitura reforçam o peso da crítica. A resposta oficial detalha que, em 2025, foram pagos R$ 6.068,00 com ambulância tipo A, R$ 33.989,31 com tipo B e R$ 493.318,60 com ambulância tipo D, a chamada UTI móvel. Já em 2026, até a resposta encaminhada ao Legislativo, o município havia registrado R$ 108.717,50 com ambulância tipo A, R$ 78.866,38 com tipo B e R$ 76.685,00 com UTI. Em linguagem menos burocrática, a conta cresce em ritmo acelerado, enquanto a cidade segue convivendo com questionamentos sobre a capacidade da estrutura própria de saúde e sobre o custo real da dependência de serviços terceirizados.
O que tornou a sessão ainda mais simbólica foi o contraste político. Logo depois das cobranças, o vereador Pastor James Garcia, líder do governo na Câmara, fez o caminho inverso: apresentou um pacote de ações positivas da prefeitura, citando veículo para o Fundo Social, indicação a prêmio do Sebrae, selo de gestão sustentável, mutirão de limpeza, melhorias no teatro, Casa de Páscoa, distribuição de ovos de Páscoa aos alunos da rede municipal e obras de infraestrutura. O discurso soou como o de uma administração sem crise, sem ruído e sem desgaste, quase uma cidade de folder. O problema é que a resposta oficial sobre ambulâncias, somada ao teor das cobranças feitas minutos antes, mostra que a vitrine institucional não responde à pergunta central: quem governa de fato, com planejamento, e quem apenas administra a emergência do dia.
O discurso do Pastor James, por si só, revela o papel que a base governista decidiu assumir neste momento político. Em vez de tensionar os dados desconfortáveis que chegaram por documento oficial e foram explorados em plenário, preferiu blindar a gestão com uma lista de entregas e ações positivas. É uma escolha política legítima, mas que aprofunda a percepção de que parte da Câmara atua mais como extensão da comunicação do Executivo do que como instância de fiscalização. Quando a cobrança cresce e a resposta vem em tom de vitrine, a sensação que fica para a população é a de que há mais esforço para proteger a imagem do governo do que para enfrentar o tamanho dos problemas.
No fim, a sessão expôs duas narrativas em disputa. De um lado, a oposição tenta colar na gestão João Fadel Filho a imagem de um governo sem planejamento, caro e reativo. De outro, a base aliada insiste na ideia de normalidade administrativa, como se os números oficiais fossem apenas detalhe de planilha. Só que planilha também fala, e às vezes fala mais alto do que discurso de ocasião. Quando o custo explode, a estrutura própria não convence e a defesa política troca explicação por vitrine, o problema deixa de ser apenas de comunicação. Vira problema de gestão. E esse, cedo ou tarde, chega na conta do contribuinte e no sofrimento de quem depende do sistema público.















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