Anunciado como conquista pela Prefeitura em 2025, o atendimento especializado em neuropediatria hoje acumula fila superior a 200 crianças, silêncio da Secretaria de Saúde e críticas crescentes à gestão municipal.
Anunciada com entusiasmo nas redes sociais da Prefeitura em 2025, a implantação da neuropediatria em Itararé foi apresentada como um avanço histórico para a saúde infantil. Vídeos oficiais, declarações públicas e material institucional afirmavam que o serviço estava em funcionamento e em expansão, com a promessa de reduzir a fila do SUS e garantir acompanhamento adequado às crianças da rede pública.
À época, o então secretário de Saúde, Enis Wumberto dos Santos, afirmou publicamente que o município dava início aos atendimentos especializados em neuropediatria e que a parceria entre Saúde e Educação permitiria diagnósticos mais rápidos e continuidade nos tratamentos. O discurso foi amplamente divulgado e permanece disponível nas redes oficiais da Prefeitura, conforme vídeo publicado em 22 de maio de 2025:
👉 https://www.instagram.com/reel/DJ7T1IlPDaT/?igsh=MXF0ZmlmeTNnMG9jNw==
Passados meses, a realidade relatada pelas famílias é oposta ao que foi anunciado. Em janeiro de 2026, responsáveis por crianças com Transtorno do Espectro Autista tornaram público o cenário de descaso enfrentado na rede pública de saúde. Há crianças aguardando desde 2024 pela primeira consulta com neuropediatra. A fila ultrapassa 200 pacientes, enquanto o atendimento ocorre apenas uma vez por mês, com número extremamente limitado de vagas.
Mesmo quando a consulta inicial ocorre, os retornos chegam a ser agendados apenas após cerca de um ano. O atraso no diagnóstico compromete o início do tratamento, o acesso à medicação e o desenvolvimento infantil, período em que o acompanhamento precoce é considerado fundamental por especialistas.
Com a troca no comando da Secretaria Municipal de Saúde, o problema se agravou. Segundo relatos das famílias, a atual secretária de Saúde, Tais Chagas Felix, não deu continuidade a um serviço que hoje tem caráter emergencial no município. Denúncias e pedidos de esclarecimento foram formalizados, sem respostas públicas, sem apresentação de plano de ação e sem transparência sobre a gestão da fila de espera.
O impasse na neuropediatria se soma a uma sequência de denúncias envolvendo a pasta da Saúde nos últimos meses. Entre elas, a existência de veículos parados na garagem da Secretaria, ambulâncias fora de operação, relatos de irregularidades em escalas de trabalho, possíveis desvios de função, uso indevido de veículos oficiais e críticas recorrentes sobre ausências e viagens em meio ao agravamento das filas.
Diante desse cenário, cresce o questionamento sobre a capacidade de gestão e autonomia da Secretaria de Saúde. Cabe saber se há impedimentos administrativos, amarras políticas ou simples incapacidade de enfrentamento dos problemas estruturais que afetam diretamente a população.
A responsabilidade final recai sobre a administração municipal. Sob a gestão do prefeito João Fadel Filho, a saúde pública se soma a outros sinais de abandono percebidos pela população, como ruas esburacadas, limpeza urbana irregular e serviços básicos operando no limite. A sensação generalizada é de uma cidade que recebe anúncios e vídeos, mas não vê a execução correspondente.
Saúde pública não é favor, não é propaganda e não pode ser tratada como peça de marketing institucional. É direito garantido por lei. A neuropediatria não se sustenta com anúncios antigos, mas com contratação de profissionais, mutirões de atendimento, ampliação da oferta e transparência na gestão da fila.
Relatos públicos expõem o impacto humano da fila
Além dos dados levantados pela reportagem, relatos públicos de mães em redes sociais reforçam a gravidade da situação e dão dimensão humana ao colapso do atendimento em neuropediatria em Itararé.
Em publicação no grupo “Notícias de Itararé – SP”, no Facebook, a moradora Amanda Soares relatou a espera pela primeira consulta com neuropediatra para seus filhos gêmeos. O desabafo, publicado em ambiente público e disponível para consulta, pode ser acessado em:
👉 https://www.facebook.com/share/p/17p8yA4f67/?mibextid=wwXIfr
No relato, a mãe afirma estar desde agosto do ano passado aguardando a primeira consulta, em uma fila que, segundo ela, ultrapassa 200 crianças, muitas das quais sequer passaram por avaliação inicial. Amanda também relata tentativas frustradas de contato com a Secretaria Municipal de Saúde, sem retorno por WhatsApp ou atendimento presencial, mesmo após agendamentos.
“Existem recursos, maneiras e meios pra zerar essa fila ou ao menos diminuir, como mutirão ou contratação de mais um profissional. Hoje a neuropediatra atende uma vez por mês em Itararé, com uma cota de 15 a 20 crianças”, escreveu.
O desabafo não é isolado. A reportagem teve acesso a dezenas de comentários públicos de mães e responsáveis que relatam esperas de dois, três e até quatro anos por consultas, retornos ou fechamento de laudos. Em diversos relatos, familiares afirmam ter recorrido à via judicial ou a consultas particulares em outras cidades, com valores em torno de R$ 650, por falta de alternativa na rede pública.
Entre os comentários, há relatos de crianças com epilepsia, convulsões, atrasos no desenvolvimento e uso de medicação sem reavaliação especializada, devido à impossibilidade de ajuste de dosagem por ausência de consulta médica. Outros depoimentos citam que apenas decisões judiciais aceleraram atendimentos, evidenciando a judicialização como única saída para famílias sem resposta administrativa.
Os prints e comentários analisados pela reportagem revelam um padrão recorrente, longas filas, atendimento mensal insuficiente, falta de retorno da Secretaria de Saúde e sensação de abandono institucional. O volume de manifestações públicas indica que o problema extrapola casos pontuais e assume caráter estrutural e coletivo.
Diante desse cenário, o contraste entre o discurso oficial divulgado em 2025 e a realidade vivida pelas famílias em 2026 se torna ainda mais evidente. A neuropediatria anunciada como conquista passou a simbolizar, para muitas mães, a distância entre a propaganda institucional e a efetiva garantia de direitos básicos na saúde pública.
A reportagem reforça que todos os relatos citados são manifestações públicas, feitas em redes sociais abertas, e refletem a percepção e a experiência direta de cidadãos que aguardam atendimento na rede municipal. A Secretaria Municipal de Saúde segue convidada a se manifestar e apresentar dados oficiais, plano de ação e cronograma para enfrentamento da demanda.













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