A fila da oftalmologia em Itararé deixou de ser apenas um dado administrativo. Com 2.669 pessoas aguardando atendimento, segundo a Moção de Apelo nº 32/2026 apresentada pelo vereador Sandro Macedo, o problema passou a representar uma cobrança direta sobre a capacidade do governo João Fadel Filho de transformar orçamento, discurso e estrutura pública em atendimento real à população.
Na 15ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal, realizada em 11 de maio de 2026, Sandro defendeu que a Prefeitura dê continuidade às tratativas com o Banco de Olhos de Sorocaba, o BOSS, para viabilizar consultas oftalmológicas em Itararé por meio de unidade móvel. A proposta busca reduzir a demanda reprimida sem obrigar pacientes a dependerem de longas viagens, regulação, transporte público de saúde e deslocamentos para outros municípios.
A moção afirma que muitos moradores dependem dessas consultas para diagnóstico, acompanhamento e tratamento de problemas de visão, com impacto direto na qualidade de vida, no desempenho escolar, no trabalho e nas atividades diárias. O documento também aponta que o atendimento in loco poderia dar mais agilidade, especialmente para pessoas em situação de vulnerabilidade ou com dificuldade de locomoção.
Na prática, o tema ultrapassa a burocracia. Para quem está na fila, uma consulta fora da cidade pode significar sair de madrugada, enfrentar estrada, frio, espera prolongada, dependência de acompanhante e um dia inteiro comprometido para um atendimento que, muitas vezes, dura poucos minutos. Para idosos, crianças, pessoas com deficiência e famílias sem estrutura, o custo humano dessa espera é maior do que qualquer planilha consegue mostrar.
Quando a oposição cobra o BOS, a base responde com AMBESP. Mas a população não quer duelo de siglas. Quer consulta.
Durante a sessão, Sandro afirmou ter buscado informações diretamente com o BOS. Segundo ele, o custo estimado para atender aproximadamente 2.700 pessoas ficaria em torno de R$ 520 mil. O vereador também citou a possibilidade de uso de uma verba de R$ 300 mil, mencionada em plenário como recurso parlamentar, que poderia garantir cerca de 1.700 consultas, reduzindo de forma expressiva a fila em curto prazo.
É aqui que a discussão precisa sair do campo do “parece caro” e entrar no campo da prioridade pública. Se o custo de R$ 520 mil for dividido por 2.700 atendimentos, o valor médio aproximado ficaria em R$ 193 por consulta. No cenário de R$ 300 mil para cerca de 1.700 atendimentos, o custo médio seria de aproximadamente R$ 176 por consulta. Para uma cidade com milhares de pessoas aguardando oftalmologista, não parece uma despesa extravagante. Parece uma decisão de gestão.
O vereador Walter de Oliveira reconheceu a importância do atendimento, mas questionou se o serviço estimado em cerca de R$ 500 mil não poderia ser feito dentro do próprio município, por meio do AMBESP, com eventual parceria com a Santa Casa. A ponderação tem lógica administrativa: fortalecer a rede local, manter o recurso em Itararé e garantir continuidade no tratamento dos pacientes.
O ponto central, porém, não é escolher um nome bonito para a solução. É executar. BOS, AMBESP ou Santa Casa são caminhos possíveis. Mas, para quem espera há meses ou anos, o debate só terá sentido se virar data, contrato, médico, exame e consulta realizada. Do contrário, a cidade troca uma sigla por outra e a fila continua parada.
A resposta de Sandro foi justamente nessa direção. O vereador afirmou que, se a solução puder ser feita pelo AMBESP, melhor ainda. Mas cobrou que a Prefeitura avance, formalize parcerias, reorganize tratativas e entregue resultado. Em outras palavras, a crítica não foi ao modelo, mas à inércia. Para a população, o nome da estrutura importa menos do que o atendimento acontecer.
Walter de Oliveira tentou deslocar o debate para uma alternativa local, defendendo que o atendimento poderia ser feito pelo AMBESP, com apoio da Santa Casa. A ideia tem mérito. Aliás, tem tanto mérito que a pergunta natural é: por que isso ainda não foi apresentado pela Prefeitura com prazo, custo e capacidade de atendimento?
Porque apontar uma alternativa no microfone é simples. O desafio é transformar a fala em execução. Se R$ 520 mil para o BOS parecem muito, a Prefeitura precisa mostrar quanto custaria fazer pelo AMBESP, quantas pessoas seriam atendidas por mês, quais profissionais fariam o serviço e quando a fila começaria a andar.
Sem essas respostas, a defesa do AMBESP corre o risco de virar apenas um “plano B” retórico, daqueles que aparecem no plenário para esfriar a cobrança e desaparecem na segunda-feira administrativa.
Esse é o ponto que mais pressiona politicamente o governo Fadel. A cidade discute uma fila de quase 2,7 mil pessoas para oftalmologia enquanto outras áreas já teriam movimentado valores expressivos desde janeiro, conforme levantamento preliminar citado nos bastidores políticos e ainda sujeito à conferência final no Portal da Transparência.
Segundo esse levantamento preliminar, a Cultura já teria ultrapassado R$ 1 milhão em despesas no período. O Turismo aparece com aproximadamente R$ 180 mil. Indústria e Comércio teria movimentado cerca de R$ 260 mil. O Demutran aparece com aproximadamente R$ 780 mil. A Garagem teria alcançado cerca de R$ 8 milhões. Já o Meio Ambiente aparece com aproximadamente R$ 600 mil.
A comparação não significa que essas áreas não devam receber recursos. Cultura, Turismo, mobilidade, manutenção da frota, Meio Ambiente e desenvolvimento econômico também são políticas públicas importantes. O ponto é outro: quando a Prefeitura consegue movimentar valores relevantes em diferentes setores, mas ainda não apresenta uma solução objetiva para milhares de pessoas aguardando uma consulta oftalmológica, a cobrança sobre a Saúde se torna inevitável.
A pergunta é direta: o que são R$ 500 mil diante de 2.669 pessoas esperando para enxergar melhor? O valor pode parecer grande em uma fala de plenário. Mas, quando comparado ao sofrimento de quem acorda de madrugada para viajar, espera horas fora de casa e depende de transporte público de saúde, a conta muda de lugar. Não é apenas uma despesa. É dignidade.
Se a Prefeitura considerar R$ 500 mil caro para reduzir a fila da oftalmologia, precisa explicar caro em relação a quê. Caro para o orçamento? Caro para a prioridade política? Caro diante de secretarias que já movimentaram centenas de milhares ou milhões de reais? Ou caro apenas porque a Saúde ainda não conseguiu transformar alternativa em execução?
É nesse ponto que o novo secretário municipal de Saúde, Luiz Fernando Tassinari, passa a ser cobrado. Trazido de Itapeva para comandar a pasta em Itararé, Tassinari chegou com expectativa de reorganização e maior capacidade técnica. Mas currículo não reduz fila. Quem espera atendimento não mede gestão por apresentação, mede por consulta marcada, exame feito e problema resolvido.
Em manifestação na Câmara, o vereador Dr. Filipe Martins afirmou que a Saúde possui previsão orçamentária suficiente para ampliar especialidades, contratar oftalmologista e concluir estruturas paradas, mas que falta gestão, planejamento e execução. O parlamentar também criticou a situação de um prédio público da odontologia que, segundo sua fala, estaria há mais de um ano após o termo de recebimento definitivo sem entrar em funcionamento.
Para Dr. Filipe, manter estrutura pública parada significa deterioração, novo gasto futuro e perda direta para a população. A crítica reforça uma tese que cresce na Câmara: Itararé não sofre apenas por falta de dinheiro, mas por dificuldade de fazer o dinheiro chegar na ponta.
O debate também expôs o esforço da base governista para deslocar a discussão do BOS para uma alternativa local, como o AMBESP. A proposta pode ser válida, especialmente se fortalecer a rede municipal e garantir continuidade no tratamento. Mas a validade política e administrativa dessa defesa depende de uma resposta objetiva da Prefeitura.
Se o caminho for o AMBESP, que o governo apresente cronograma, custo, equipe, capacidade de atendimento e prazo para início. Se for a Santa Casa, que a parceria seja formalizada. Se for o BOS, que as tratativas avancem. O que não cabe mais é a cidade continuar discutindo o modelo enquanto 2.669 pessoas seguem aguardando consulta.
A Câmara pode sugerir, cobrar, fiscalizar e pressionar. Mas a responsabilidade de executar é do Executivo. O cidadão não espera disputa de narrativa. Espera consulta marcada, exame feito e tratamento iniciado.
A fila da oftalmologia virou um teste de realidade para o governo Fadel. Não basta ter secretário novo, vereador defendendo caminho alternativo, base articulada ou discurso de planejamento. A pergunta que importa é outra: quando essas 2.669 pessoas serão atendidas?
Enquanto essa resposta não vier com prazo, recurso definido e ação concreta, a crítica continuará de pé. Porque a população não vive de explicação em plenário, não enxerga com promessa e não trata problema de visão com discurso político.
No fim, Itararé parece presa a um paradoxo cruel: há debate, há moção, há proposta, há possibilidade de verba, há alternativa pelo BOS, há sugestão pelo AMBESP, há cobrança pela Santa Casa. O que ainda falta é a Prefeitura dizer, com clareza, qual caminho vai seguir e quando a fila começará a andar.
O espaço permanece aberto para manifestação da Prefeitura de Itararé, da Secretaria Municipal de Saúde, do vereador Walter de Oliveira e dos demais citados.
O peso dos R$ 500 mil
2.669 pessoas aguardam consulta oftalmológica em Itararé, segundo a Moção de Apelo nº 32/2026.
R$ 520 mil foi o custo aproximado citado por Sandro Macedo para atender cerca de 2.700 pessoas pelo BOS.
R$ 193 por consulta seria o custo médio estimado nessa conta.
R$ 300 mil poderiam garantir cerca de 1.700 atendimentos, segundo estimativa mencionada em plenário.
R$ 176 por atendimento seria o custo médio aproximado nessa segunda simulação.
Pergunta central: se há milhões circulando em outras áreas, por que a fila da visão ainda não tem data para andar?
Gastos preliminares citados desde janeiro de 2026
- Cultura: mais de R$ 1 milhão
- Turismo: aproximadamente R$ 180 mil
- Indústria e Comércio: aproximadamente R$ 260 mil
- Demutran: aproximadamente R$ 780 mil
- Garagem: aproximadamente R$ 8 milhões
- Meio Ambiente: aproximadamente R$ 600 mil
- BOS para oftalmologia: aproximadamente R$ 520 mil para atender cerca de 2.700 pessoas
Observação editorial: os valores por secretaria devem ser tratados como levantamento preliminar até conferência final no Portal da Transparência.


















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