A disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo colocou Itararé diante de uma contradição política que merece explicação.
O prefeito João Fadel Filho tem manifestado publicamente apoio e pedido votos para dois candidatos a deputado estadual cujas carreiras políticas foram construídas fora de Itararé: Danilo Joan, ex-prefeito de Cajamar, e Polaco Moura, vice-prefeito de Apiaí.
A situação chama ainda mais atenção porque, quando o próprio João Fadel disputou uma vaga de deputado estadual, seu discurso eleitoral valorizava a representação política de Itararé e a importância de o município apoiar candidatos ligados à própria cidade.
A Folha Sudeste possui em seu acervo registros em vídeo e fotografias de campanhas e manifestações públicas que documentam esse discurso e também os apoios atuais. No caso de Polaco Moura, há inclusive vídeo publicado em suas redes sociais com manifestação pública de João Fadel em favor da candidatura.
Agora, em 2026, o cenário é outro.
Itararé possui Fernando Henrique da Silva, o Fernando FH, candidato a deputado estadual pelo Podemos, número 20190, nascido no município e com trajetória eleitoral anterior como vereador e candidato a prefeito da cidade.
Mesmo assim, João Fadel decidiu pedir votos para dois candidatos do Progressistas cujas bases políticas estão em outros municípios.
O que mudou entre o discurso utilizado por João Fadel quando buscava votos para si e a decisão de agora apoiar candidatos de Cajamar e Apiaí?
Danilo Joan: carreira construída em Cajamar, fora do Sudoeste Paulista
Danilo Barbosa Machado, conhecido politicamente como Danilo Joan, disputa uma vaga de deputado estadual pelo Progressistas.
Sua trajetória política está concentrada principalmente em Cajamar, na Região Metropolitana de São Paulo, onde exerceu o cargo de prefeito.
Danilo foi eleito prefeito em eleição suplementar realizada em 2019 e novamente nas eleições municipais de 2020. Antes da candidatura à Assembleia Legislativa, sua principal experiência política esteve concentrada naquele município.
Cajamar não integra o Sudoeste Paulista e está inserida em uma realidade territorial, econômica e política diferente da encontrada em municípios como Itararé, Itapeva, Apiaí, Riversul, Itaberá e outras cidades da região.
Isso não impede que um candidato de qualquer ponto do Estado dispute votos em Itararé. Deputados estaduais, quando eleitos, representam formalmente toda a população paulista.
Mas permite uma pergunta legítima ao eleitor: qual vínculo político Danilo Joan possuía com Itararé antes de disputar os votos do município em 2026?
Até esta etapa da apuração, a Folha Sudeste não encontrou documentação robusta comprovando obra, recurso, projeto ou atuação política específica de Danilo Joan em benefício de Itararé antes desta eleição.
A questão não é simplesmente onde o candidato nasceu ou mora. É entender onde estão sua trajetória política, sua base eleitoral, suas relações e suas prioridades anteriores à eleição.
Danilo Joan e as aplicações no Banco Master investigadas pela PF
Há ainda outro elemento de interesse público envolvendo a administração de Cajamar.
Em maio de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Off-Balance, destinada a investigar aplicações financeiras realizadas pelo Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar.
Segundo reportagem do G1, a investigação envolve aproximadamente R$ 107 milhões aplicados pela previdência dos servidores de Cajamar. Parte dos recursos foi direcionada ao Banco Master durante período em que Danilo Joan exercia o cargo de prefeito.
A associação precisa, entretanto, ser feita com responsabilidade.
Segundo reportagem do UOL publicada em 13 de maio de 2026, Danilo Joan não era apontado como alvo da Operação Off-Balance naquela fase. A publicação informou que a eventual participação do ex-prefeito nas aplicações ainda seria aprofundada pela Polícia Federal.
Portanto, não há base para afirmar que Danilo tenha desviado os recursos, participado de fraude no Banco Master ou sido condenado em razão desses investimentos.
O fato documentado é que as aplicações atualmente investigadas pela Polícia Federal ocorreram durante o período em que Danilo Joan administrava Cajamar.
📌 Veja também: cobertura nacional sobre o caso
A investigação envolvendo as aplicações da Previdência dos servidores de Cajamar no Banco Master também foi noticiada por veículos nacionais. A Folha Sudeste disponibiliza as reportagens originais para consulta dos leitores:
G1 | Globo
PF mira aplicação de R$ 107 milhões da Previdência dos servidores de Cajamar no Banco Master; entenda
→ Leia a reportagem completa no G1
UOL Notícias
PF mira gestão de aliado de Ciro Nogueira por aporte de R$ 87 mi no Master
→ Leia a reportagem completa no UOL
Outro inquérito cita Danilo Joan como investigado
A consulta pública do Tribunal de Justiça de São Paulo também apresenta Danilo Barbosa Machado na condição de investigado em inquérito policial.
O levantamento realizado pela Folha Sudeste identificou, entre outros registros, o Inquérito Policial nº 0017789-75.2024.8.26.0000. Na consulta analisada pela reportagem, Danilo aparece como investigado, sem julgamento registrado na página pública consultada.
A existência de inquérito policial não representa condenação e tampouco permite afirmar que uma pessoa tenha praticado os crimes investigados.
Polaco Moura: carreira política concentrada em Apiaí
O segundo candidato apoiado pelo prefeito João Fadel é Polaco Moura.
Everson Leonardi de Paula, conhecido politicamente como Polaco Moura, também disputa uma vaga de deputado estadual pelo Progressistas.
Sua trajetória eleitoral foi construída fundamentalmente dentro de Apiaí.
Polaco disputou eleições para vereador, foi eleito para a Câmara Municipal e posteriormente passou a ocupar o cargo de vice-prefeito. Seus mandatos eletivos e sua principal base política estão concentrados naquele município.
Existem registros públicos pontuais de sua presença em atividades envolvendo municípios da região. Em fevereiro de 2024, por exemplo, a Prefeitura de Apiaí informou que Polaco participou de uma reunião do CONDERSUL em Itapirapuã Paulista representando Apiaí em nome do prefeito Sérgio Victor Barbosa.
Esses registros comprovam participações pontuais. Eles não devem ser confundidos automaticamente com uma trajetória de liderança política regional.
A carreira eletiva comprovada de Polaco permanece concentrada principalmente em Apiaí.
E o que Polaco Moura já fez especificamente por Itararé?
Essa é a pergunta que interessa diretamente ao eleitor local.
Até esta etapa da investigação, a Folha Sudeste não encontrou documentação robusta comprovando obra, emenda, recurso ou projeto realizado por Polaco Moura especificamente para Itararé.
Como vereador e vice-prefeito, Polaco também não possuía emendas parlamentares estaduais próprias.
Isso não significa que não tenha participado de articulações ou defendido pautas que alcançassem municípios próximos. Significa que existe uma diferença importante entre participar de uma reunião, articular politicamente, liderar determinada política regional e efetivamente entregar recursos ou projetos a um município.
O discurso de João Fadel quando o candidato era ele
É justamente neste ponto que a decisão atual do prefeito ganha uma dimensão política maior.
João Fadel conhece de perto uma disputa para deputado estadual. Em 2022, ele próprio concorreu ao cargo pelo Progressistas.
Durante suas campanhas, João utilizou sua ligação com Itararé e a necessidade de representação política do município como argumentos perante o eleitorado.
A Folha Sudeste possui registros audiovisuais e fotográficos desse período nos quais o então candidato defendia a valorização de candidaturas ligadas a Itararé.
Agora, quatro anos depois, João Fadel está do outro lado da equação.
Em vez de disputar a vaga, passou a apoiar Danilo Joan, cuja carreira política foi construída em Cajamar, e Polaco Moura, cuja trajetória eleitoral está concentrada em Apiaí.
Se a representação de Itararé era importante quando João Fadel disputava pessoalmente uma cadeira na Assembleia Legislativa, o que mudou em 2026?
Itararé tem Fernando FH concorrendo ao mesmo cargo
Existe ainda um elemento que torna essa pergunta mais relevante.
Itararé possui candidato a deputado estadual nesta eleição.
Fernando Henrique da Silva, conhecido como Fernando FH, número 20190, concorre pelo Podemos. Sua trajetória política está ligada ao município, onde já exerceu mandato de vereador e disputou a Prefeitura.
Isso não significa que sua origem determine automaticamente que o eleitor deva escolhê-lo. Local de nascimento não substitui análise de propostas, histórico, qualificação, atuação política ou capacidade de representação.
Mas a existência de uma candidatura ligada diretamente ao município torna legítimo questionar a escolha política do prefeito.
Por que João Fadel, que utilizou a defesa da representação de Itararé quando disputava o mesmo cargo, decidiu agora pedir votos para dois candidatos cujas bases políticas foram construídas em outras cidades?
O que Danilo Joan e Polaco Moura já entregaram concretamente para Itararé que justifique esse apoio?
Que compromissos específicos assumiram com o município?
E, principalmente: o que mudou no entendimento de João Fadel sobre a importância de Itararé possuir representação própria na Assembleia Legislativa?
Apoiar é um direito. Explicar também faz parte da política
João Fadel possui o direito político de apoiar os candidatos que considerar adequados.
Danilo Joan e Polaco Moura também possuem pleno direito de disputar votos em qualquer município paulista.
Da mesma maneira, o eleitor tem direito de conhecer o histórico daqueles que chegam à cidade em busca de apoio.
No caso de Danilo, a Folha Sudeste encontrou uma trajetória concentrada principalmente em Cajamar, aplicações milionárias da previdência daquele município no Banco Master atualmente investigadas pela Polícia Federal e registros de investigação que devem ser apresentados sempre respeitando a presunção de inocência.
No caso de Polaco Moura, encontrou uma carreira eleitoral essencialmente construída em Apiaí, registros pontuais em discussões envolvendo municípios da região e, até esta etapa, nenhuma entrega específica para Itararé documentalmente comprovada.
E no caso de João Fadel, existe uma questão política que somente o próprio prefeito pode responder: por que o discurso de valorização da representação política de Itararé utilizado quando ele próprio era candidato não está sendo aplicado da mesma maneira em 2026?
A Folha Sudeste deixa espaço aberto para manifestação de João Fadel, Danilo Joan e Polaco Moura sobre os pontos apresentados nesta reportagem.















Discussão sobre este post