A Prefeitura de Itararé voltou ao centro de uma denúncia grave na Câmara Municipal. Desta vez, a cobrança não envolve apenas buracos, lixo acumulado, falhas de zeladoria ou problemas ambientais que já vinham desgastando a gestão João Fadel Filho. Segundo fala do vereador Dr. Filipe Martins na tribuna, o próprio nome da Prefeitura teria sido protestado em cartório e registrado em órgão de proteção ao crédito por falta de pagamento de dívida.
Durante a fala, o vereador afirmou possuir documentos em mãos para comprovar tanto o protesto quanto o registro em órgão de proteção ao crédito. A afirmação eleva o peso político da denúncia, porque deixa de ser apenas uma fala de plenário e passa a indicar a existência de material documental que, segundo o parlamentar, sustentaria a cobrança feita contra o governo.
A denúncia é politicamente pesada e administrativamente constrangedora. Uma empresa que deseja contratar com o poder público precisa apresentar regularidade fiscal, certidões negativas e documentação em dia. Se tiver pendências, pode ser impedida de vender ou prestar serviços ao município. A pergunta feita pelo vereador expõe o ponto central do problema: se a Prefeitura exige ficha limpa dos fornecedores, como explicar que o próprio município, arrecadador de milhões em tributos, apareça em situação de inadimplência?
Na tribuna, Dr. Filipe afirmou ter recebido a informação, feito uma apuração preliminar e confirmado a existência de protesto junto ao tabelionato da comarca de Itararé. Segundo ele, a situação não seria resultado de um simples erro administrativo recente, mas de uma pendência que já estaria registrada há meses. O vereador também disse ter identificado inscrição relacionada ao SPC, classificando o caso como “inacreditável” diante da estrutura arrecadatória da Prefeitura.
O caso também levanta outro ponto sensível: além da dívida protestada, a Prefeitura poderá ter que pagar custas e emolumentos de cartório para regularizar a situação. Ou seja, se a denúncia for confirmada, o problema não termina apenas no pagamento do débito original. A falta de organização administrativa pode gerar despesa extra aos cofres públicos, custo que, no fim da linha, recai sobre o próprio município.
Esse detalhe muda o tamanho da discussão. Não se trata apenas de uma pendência financeira, mas de uma possível falha de gestão que transforma atraso em gasto adicional. Em linguagem simples: quando a Prefeitura deixa uma dívida chegar ao protesto, o prejuízo administrativo pode virar custo público. E custo público, em qualquer cidade minimamente séria, exige explicação.
O episódio abre uma crise de credibilidade. Quando um cidadão atrasa IPTU, taxa, ITBI ou qualquer obrigação municipal, a Prefeitura cobra, notifica e pode levar o débito aos meios legais de cobrança. O rigor aplicado ao contribuinte, portanto, precisa valer também para a administração pública. O que está em jogo não é apenas uma dívida pontual, mas a confiança institucional da cidade. Quando o CNPJ da Prefeitura é colocado sob suspeita, o dano não fica restrito ao gabinete do prefeito. Ele respinga no município, nos fornecedores, nos servidores e na população.
A crítica ganha ainda mais força porque ocorre em meio a uma sequência de desgastes da gestão João Fadel Filho. A cidade já vinha sendo cobrada por lixo nas ruas, descarte irregular, mato alto, buracos e falhas de zeladoria. Agora, a denúncia muda de patamar: não se trata apenas da sujeira visível nos bairros, mas de uma possível desorganização administrativa dentro da própria máquina pública. A imagem é dura, mas inevitável: Itararé cobra limpeza urbana, enquanto a oposição afirma que até o nome da Prefeitura apareceu sujo.
O caso também reacende uma pergunta incômoda. Quando houve a multa da CETESB por descarte irregular, o prefeito João Fadel Filho tentou atribuir responsabilidade ao vereador Dr. Filipe Martins, que havia denunciado o caso. Agora, diante de uma despesa extra que pode ter sido gerada pelo protesto, a quem será atribuída a culpa? Ao cartório? Ao fornecedor? À oposição? Ou, neste caso, a gestão vai reconhecer que os custos decorreram de falhas da própria administração?
A pergunta é dura, mas necessária. Governar não é apenas gravar vídeo, responder crítica ou procurar culpados. Governar é pagar em dia, planejar despesas, respeitar fornecedores e proteger a credibilidade do município. Se a Prefeitura foi protestada, a gestão precisa explicar por que deixou a situação chegar a esse ponto. Se não foi, precisa apresentar certidão, documento ou comprovação oficial que desmonte a denúncia.
Dr. Filipe também associou o caso a um possível retrocesso na relação com fornecedores. Ele relembrou períodos em que empresas locais teriam resistência em vender para a Prefeitura por medo de atraso nos pagamentos. Para o vereador, permitir que uma dívida chegue ao protesto compromete a confiança de quem presta serviço ao município e reacende um fantasma que Itararé deveria ter deixado no passado: o da Prefeitura má pagadora.
A gestão João Fadel Filho precisa explicar, com documentos, qual é a origem da dívida, o valor, o credor, a data do vencimento, se houve contestação administrativa ou judicial e quais providências foram tomadas para regularizar a situação. Também cabe esclarecer se existem outras pendências semelhantes, se fornecedores estão recebendo em dia, qual será o custo total da regularização e se haverá pagamento de despesas cartorárias com dinheiro público.
Não basta tratar o caso como ataque político. O vereador fez uma acusação objetiva, verificável e de alto interesse público. Se a denúncia estiver errada, a Prefeitura deve demonstrar com certidão negativa, comprovante de inexistência de protesto ou documento oficial. Se estiver correta, o governo precisa assumir a falha, regularizar a pendência e explicar por que a cidade chegou a esse ponto.
Em ano de cobrança crescente sobre serviços básicos, o caso do “nome sujo” vira símbolo de uma gestão pressionada por todos os lados. O lixo que aparece nas ruas incomoda. O mato alto incomoda. O buraco incomoda. Mas uma Prefeitura protestada, se confirmada documentalmente, passa um recado ainda mais grave: o problema pode não estar apenas na ponta do serviço público, mas no coração da gestão.
















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