A chuva caiu com força. Telhados voaram, casas foram atingidas, famílias ficaram expostas e a cidade entrou oficialmente em situação de emergência. Mas, depois da tempestade, veio outra cobrança.
A estrutura pública reagiu com a mesma urgência que a situação exigia?
A Folha Sudeste recebeu diversas manifestações de moradores questionando principalmente a burocracia para retirada de doações e materiais. Entre os relatos encaminhados ao jornal, há pessoas afirmando que itens permaneciam armazenados em pontos de arrecadação enquanto famílias ainda aguardavam ajuda.
Cadastro, controle e organização são necessários. Mas existe um limite.
Quando uma família está com o telhado arrancado, chuva entrando dentro de casa e previsão de novo temporal, burocracia demais deixa de ser organização e passa a ser obstáculo.
Enquanto alguns esperavam o expediente, outros estavam nas ruas
Em meio ao caos, é preciso reconhecer quem assumiu a responsabilidade de estar onde a população precisava.
A Guarda Civil Municipal de Itararé, sob o comando de Paulo Perucio, esteve mobilizada, assim como integrantes da Defesa Civil, voluntários, empresários, comerciantes e grupos que percorreram bairros levando telhas, lonas, doações e auxílio às famílias atingidas.
Enquanto muita gente enfrentava chuva, frio e madrugada para ajudar, a população começou a fazer uma pergunta legítima:
Onde estava toda a estrutura que deveria entrar em ação quando uma cidade decreta situação de emergência?
Não se trata de dizer que a Prefeitura nada fez. Isso seria incorreto. Equipes foram mobilizadas. Houve atuação da Defesa Civil, Guarda Municipal e Assistência Social. O município decretou emergência.
Mas decretar emergência no papel é apenas o começo. Emergência exige estrutura de emergência.
Situação excepcional não combina com rotina administrativa
Quando centenas de famílias estão vulneráveis, não basta funcionar como em uma segunda-feira qualquer. Era necessário comando, integração entre secretarias, equipes de plantão, logística de distribuição, estoque de materiais, resposta rápida e capacidade de decisão.
Ainda mais porque havia previsão de novas chuvas. Famílias estavam com casas abertas, móveis molhados, crianças e idosos expostos. Nesse cenário, cada hora importa.
A chuva não espera abertura de secretaria. A água não respeita horário de expediente. E uma casa destelhada não pode esperar o próximo dia útil.
É justamente nas crises que uma administração mostra se possui planejamento ou apenas procedimentos. O vídeo publicado pelo empresário Fernando FH elevou o tom e colocou o problema no centro do debate político. As críticas foram duras. Mas seria um erro transformar toda essa discussão em uma simples disputa entre João Fadel Filho e Fernando FH.
A Folha Sudeste recebeu reclamações semelhantes de moradores, pessoas que não estavam discutindo eleição, candidatura ou oposição. Estavam perguntando por telhas, assistência, doações, atendimento e rapidez.
Ao prefeito João Fadel Filho, fica uma cobrança objetiva: tratar essas manifestações apenas como movimento político seria ignorar uma insatisfação que veio diretamente de parte da população atingida. A administração tem o direito de apresentar sua versão, números, equipes mobilizadas e resultados.
Mas também tem o dever de explicar onde houve demora, por que surgiram tantas reclamações sobre burocracia e se todas as secretarias envolvidas estavam realmente preparadas para atuar fora da rotina.
Quem ocupa cargo de comando precisa comandar
Uma tragédia dessa proporção também coloca secretários e gestores à prova. Cargo público não serve apenas para os dias tranquilos. É na emergência que liderança, preparo, autonomia e capacidade de decisão precisam aparecer.
Se a cidade entrou em emergência, a administração também precisava entrar. Não amanhã. Não depois do cadastro. Não depois do expediente. Naquele momento.
Reconhecer o trabalho da Guarda Municipal, da Defesa Civil, dos servidores que estiveram nas ruas, dos empresários e dos voluntários não significa atacar toda a Prefeitura. Significa justamente separar quem respondeu rapidamente de uma estrutura administrativa que agora precisa explicar onde falhou.
A população merece respostas, não justificativas
Passada a fase mais crítica, não basta comemorar doações arrecadadas ou divulgar ações realizadas. Mais importante do que transformar a tragédia em uma disputa política é utilizar o episódio para identificar falhas, reconhecer quem trabalhou e construir uma estrutura pública capaz de reagir mais rapidamente quando a população voltar a precisar.
Itararé precisa saber: Havia um plano preparado para uma situação dessa dimensão? Quantas equipes ficaram de plantão durante a madrugada? Por que moradores reclamaram de burocracia para receber ajuda?
A chuva foi uma tragédia natural. A falta de preparação, quando existe, é um problema administrativo. E essa é a discussão que precisa ser enfrentada. Não para alimentar guerra política.
Mas porque, quando a próxima tempestade chegar, a população não pode descobrir novamente, no meio da chuva, quais partes da máquina pública estavam ou não preparadas para funcionar.
















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